Universo em desencanto: como a ficção científica pode nos ajudar

 (Foto: Ilustração: Marcus Penna)
 


Argumento 1: um governo que inventa informa&ccedil;&otilde;es para manipular a realidade a seu favor e d&aacute; a isso o nome de &ldquo;fatos alternativos&rdquo;. Poderia ser no livro <em>1984</em>, de <a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2018/06/8-fatos-sobre-george-orwell-autor-de-revolucao-dos-bichos-e-1984.html" target="_blank">George Orwell</a>, mas aconteceu quando a assessora presidencial norte-americana, Kellyanne Conway, apresentou n&uacute;meros inflados de pessoas que haviam assistido ao vivo &agrave; posse de <a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/11/psicologia-por-tras-das-pessoas-que-apoiam-donald-trump.html" target="_blank">Donald Trump</a>. Argumento 2: uma sociedade em que mulheres s&atilde;o subjugadas e obrigadas a gestar beb&ecirc;s de seus estupradores. Poderia ser na obra <em>The Handmaid&rsquo;s Tale</em> (ou <em>O Conto da Aia</em>, Ed. Rocco), escrita por <a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2018/03/margaret-atwood-5-fatos-para-conhecer-autora-de-handmaids-tale.html" target="_blank">Margaret Atwood</a> e adaptada para a TV, mas &eacute; tamb&eacute;m o que pode acontecer no Brasil caso a PEC 181 seja aprovada. Argumento 3: uma superm&aacute;quina envia ao passado um rob&ocirc; assassino para matar a m&atilde;e de seu futuro algoz antes mesmo que ele nas&ccedil;a. Poderia ser em <em>O Exterminador do Futuro</em> &mdash; e, nesse caso, &eacute; mesmo.


Muitas vezes, a fic&ccedil;&atilde;o encontra formas pouco &oacute;bvias de simular a realidade em que vivemos. Entre todos os g&ecirc;neros, a <strong>fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica</strong> (FC) &eacute; certamente um dos mais h&aacute;beis nesse quesito. Ao dissipar a fuma&ccedil;a produzida por carros voadores e naves alien&iacute;genas, o que sobra &eacute; uma reflex&atilde;o profunda acerca da natureza humana e do modo como conduzimos o presente, n&atilde;o o futuro. &ldquo;A boa fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica age do mesmo modo que a boa literatura e a boa arte mainstream: expandindo nossa consci&ecirc;ncia, nossa intelig&ecirc;ncia&rdquo;, afirma o escritor e cr&iacute;tico liter&aacute;rio Nelson de Oliveira. &ldquo;Ela faz isso ao abordar temas que est&atilde;o fora do card&aacute;pio da literatura realista-naturalista. A boa fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica extrapola o aqui-agora radicalmente, de uma maneira que nenhum outro g&ecirc;nero liter&aacute;rio consegue fazer.&rdquo;


Para a escritora <a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2017/01/8-livros-recomendados-por-ursula-le-guin.html" target="_blank">Ursula K. Le Guin</a> &mdash; falecida em janeiro deste ano &mdash;, al&eacute;m de extrapola&ccedil;&atilde;o, a FC &eacute; um experimento mental. &ldquo;O objetivo do experimento mental, termo usado por Schr&ouml;dinger e outros f&iacute;sicos, n&atilde;o &eacute; prever o futuro &mdash; na verdade, o experimento mental mais famoso de <a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/09/gato-de-schrodinger-entenda-o-que-e-o-experimento.html" target="_blank">Schr&ouml;dinger [<em>o do gato</em>]</a> acaba mostrando que o &lsquo;futuro&rsquo;, no n&iacute;vel qu&acirc;ntico, n&atilde;o pode ser previsto &mdash;, mas descrever a realidade, o mundo atual&rdquo;, escreveu a autora na introdu&ccedil;&atilde;o de uma de suas obras mais aclamadas: <em>A M&atilde;o Esquerda da Escurid&atilde;o</em> (Ed. Aleph). &ldquo;A fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica n&atilde;o prev&ecirc;; descreve.&rdquo;


N&atilde;o &eacute; &agrave; toa, portanto, que, apesar de completar cinco d&eacute;cadas neste ano, uma obra como <em>2001: Uma Odisseia no Espa&ccedil;o</em> continue t&atilde;o conservada que pare&ccedil;a ter sido colocada em uma c&acirc;mara de criogenia. A diferen&ccedil;a &eacute; que obras assim, ao sa&iacute;rem do congelamento, n&atilde;o estranham o mundo, uma vez que j&aacute; o conhecem perfeitamente. Isso mostra que o tempo s&oacute; &eacute; um problema para quem o entende como uma sucess&atilde;o de acontecimentos que formam passado, presente e futuro. Obras-primas como a de <a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2018/07/stanley-kubrick-6-fatos-sobre-o-diretor-de-2001-e-laranja-mecanica.html" target="_blank">Stanley Kubrick</a> e Arthur C. Clarke est&atilde;o livres dessa &ldquo;ilus&atilde;o persistente&rdquo; &mdash; como definiu <a href="https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2015/11/6-reflexoes-que-vao-te-introduzir-ao-pensamento-de-albert-einstein.html" target="_blank">Albert Einstein</a> &mdash;, afinal, n&atilde;o s&atilde;o elas que existem no tempo, e sim o tempo que existe nelas.


&ldquo;Nas boas obras de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, como 2001, &eacute; inevit&aacute;vel enxergar ecos da nossa experi&ecirc;ncia como criaturas do s&eacute;culo 21&rdquo;, afirma a jornalista Cl&aacute;udia Fusco, mestre em estudos de fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica pela Universidade de Liverpool. &ldquo;E o que isso significa? Que estamos totalmente imersos na busca por ferramentas, como as redes sociais, cada vez mais complexas para necessidades cada vez mais espec&iacute;ficas &mdash; e nos entregamos emocional e socialmente a elas.&rdquo; Segundo Fusco, somos seres fr&aacute;geis e curiosos na mesma propor&ccedil;&atilde;o, e a busca da FC &eacute;, acima de tudo, a busca pela ess&ecirc;ncia humana: &ldquo;<em>2001</em> nos apresenta isso de forma magistral, tanto em livro quanto em filme&rdquo;.
 (Foto: Ícone: Leonardo Yorka)
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<em><strong>PARA&Iacute;SOS ARTIFICIAIS</strong></em>


Ultimamente, como um sintoma de que a sociedade se aproxima do desencanto, um dos subg&ecirc;neros mais desgra&ccedil;ados da FC vem ganhando cada vez mais destaque: a distopia. Para falar dela &eacute; preciso voltar a 1516, quando Thomas More lan&ccedil;ou <em>A Utopia</em>, livro baseado nos relatos do navegador Rafael Hitlodeu, que teria encontrado o para&iacute;so terrestre perfeito na fict&iacute;cia ilha de Utopia &mdash; literalmente, um &ldquo;n&atilde;o lugar&rdquo; ou um &ldquo;lugar que n&atilde;o existe&rdquo;, mas que, pela descri&ccedil;&atilde;o, existiria sim, e teria at&eacute; nome: poderia ser Fernando de Noronha ou Cabo Frio. Viria de l&aacute; um projeto alternativo teoricamente ideal de sociedade que todas as culturas poderiam usar como refer&ecirc;ncia. Praticamente, uma bolha de liberdade e felicidade.


O problema &eacute; que a utopia de uns &eacute; a distopia de outros, como afirma o historiador da Universidade de Londres Gregory Claeys, autor de <em>Utopia: A Hist&oacute;ria de uma Ideia</em> (Ed. Sesc). &ldquo;Historicamente, por exemplo, muitas &lsquo;sociedades ideais&rsquo; aceitavam a escravid&atilde;o (na fic&ccedil;&atilde;o, at&eacute; <em>A Utopia</em>, de More, aceita) ou a remo&ccedil;&atilde;o das popula&ccedil;&otilde;es nativas a fim de prover terra aos conquistadores (como na conquista das Am&eacute;ricas e da Austr&aacute;lia)&rdquo;, lembra Claeys &agrave; GALILEU. Para ele, at&eacute; nas distopias &eacute; poss&iacute;vel reconhecer que, enquanto alguns infelizes vivem um pesadelo, outros afortunados sonham &mdash; de fato, nenhum primata reclama de deter o poder em <em>O Planeta dos Macacos</em>, outra obra que, neste ano, torna-se cinquentona. &ldquo;Ou seja, a utopia de alguns, mesmo que em menor escala, teria que implicar na explora&ccedil;&atilde;o de outro grupo&rdquo;, diz o professor.


&Eacute; por isso que, em um artigo da revista <em>The New Yorker</em>, a historiadora Jil Lepore sentencia: &ldquo;Distopias seguem utopias como trov&otilde;es seguem raios&rdquo;. Outros especialistas refor&ccedil;am essa ideia tempestuosa. &ldquo;A utopia surgiu com Thomas More justamente para criticar a situa&ccedil;&atilde;o social da &eacute;poca, em particular a condi&ccedil;&atilde;o inglesa, descrita como horrenda, injusta, violenta&rdquo;, explica o professor de Hist&oacute;ria Liter&aacute;ria Carlos Berriel, editor da revista Morus e coordenador do Grupo de Pesquisa Renascimento e Utopia e do Centro de Estudos Ut&oacute;picos (U-Topus), da Unicamp. &ldquo;Poder&iacute;amos at&eacute; imaginar More escrevendo uma distopia no seu tempo, com carneiros mutantes devorando a popula&ccedil;&atilde;o; mas ele optou pela modalidade positiva, ut&oacute;pica, descrevendo um pa&iacute;s que teria resolvido seus problemas por meio de medidas governamentais diferentes das da Inglaterra real.&rdquo;


Para Berriel, tanto as utopias quanto as distopias tratam de situa&ccedil;&otilde;es calamitosas. A diferen&ccedil;a &eacute; o procedimento liter&aacute;rio: enquanto a primeira mostra o contr&aacute;rio da realidade, a segunda revela uma sociedade que existe, mas com suas caracter&iacute;sticas negativas dilatadas ao m&aacute;ximo. Pegue, por exemplo, as redes sociais, coloque uma lupa sobre a quest&atilde;o da privacidade e do v&iacute;cio e o resultado ser&aacute; o livro <em>O C&iacute;rculo</em>, de Dave Eggers &mdash; e uma adapta&ccedil;&atilde;o question&aacute;vel para o cinema, com <a href="https://revistagalileu.globo.com/blogs/estante-galileu/noticia/2016/12/9-livros-que-emma-watson-leu-e-que-voce-deveria-ler-tambem.html" target="_blank">Emma Watson</a> e Tom Hanks.


A quest&atilde;o &eacute;: por que, ent&atilde;o, nos &uacute;ltimos tempos, nos vemos mais refletidos no espelho negro das distopias do que nas utopias? O que isso diz sobre n&oacute;s? Com a elei&ccedil;&atilde;o de Donald Trump, 1984, lan&ccedil;ado em 1949, alcan&ccedil;ou o topo da lista de mais vendidos da Amazon. As vendas de <em>O Conto da Aia</em>, de 1985, tamb&eacute;m aumentaram 30% no mesmo per&iacute;odo, nos Estados Unidos &mdash; sem falar que a s&eacute;rie baseada no livro venceu o Globo de Ouro de melhor drama neste ano. Al&eacute;m disso, apesar do desconforto (ou por causa dele), a identifica&ccedil;&atilde;o do p&uacute;blico com <a href="https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2016/10/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-black-mirror.html" target="_blank"><em>Black Mirror</em></a> foi t&atilde;o arrebatadora que a s&eacute;rie at&eacute; se tornou um adjetivo: &ldquo;Isso &eacute; muito <em>Black Mirror</em>&rdquo;, que caracteriza situa&ccedil;&otilde;es em que a tecnologia &eacute; mais assustadora do que o Alien.


&ldquo;A distopia coloca em m&atilde;os humanas a capacidade de criar seu pr&oacute;prio inferno, seja pela restri&ccedil;&atilde;o de direitos essenciais, como liberdade e afeto, seja pela cria&ccedil;&atilde;o de para&iacute;sos artificiais, nos quais a humanidade escolhe abrir m&atilde;o de sua ess&ecirc;ncia e direitos&rdquo;, diz Cl&aacute;udia Fusco. Para a jornalista, em tempos de retrocessos pol&iacute;ticos e sociais e de lideran&ccedil;as amea&ccedil;adoras, &eacute; inevit&aacute;vel imaginar que essas condi&ccedil;&otilde;es evoluam. &ldquo;Vale lembrar que tudo o que acontece &agrave;s mulheres de <em>O Conto da Aia</em> ocorria, de fato (e ainda ocorre), com muitas mulheres ao redor do mundo.&rdquo;
 (Foto: Ilustração: Marcus Penna)
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<em><strong>AINDA REBELDES?</strong></em>


J&aacute; para o soci&oacute;logo polon&ecirc;s <a href="https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2016/12/3-reflexoes-para-entender-o-pensamento-de-zygmunt-bauman.html" target="_blank">Zygmunt Bauman</a>, o termo que melhor se adequaria ao per&iacute;odo em que vivemos n&atilde;o &eacute; utopia nem distopia, mas &ldquo;retrotopia&rdquo;. No livro <em>Retrotopia</em> (Ed. Zahar) &mdash; &uacute;ltima obra escrita por ele antes de morrer, em janeiro de 2017, lan&ccedil;ada postumamente &mdash;, o pensador da modernidade l&iacute;quida cita a professora de literatura eslava de Harvard Svetlana Boym: &ldquo;O s&eacute;culo 20 come&ccedil;ou com uma utopia futurista e acabou em nostalgia&rdquo;.


O soci&oacute;logo defende que, ao olhar para o futuro e se deparar com a falta de esperan&ccedil;a e o caos, as pessoas se voltam para o passado numa tentativa frustrada de encontrar solu&ccedil;&otilde;es para o presente. Mas se trata de um passado idealizado, no qual tudo era perfeito, esquecendo que, assim como em <em>Blade Runner</em>, nossas mem&oacute;rias podem ser t&atilde;o question&aacute;veis quanto a humanidade de um replicante modelo Nexus-6.


Segundo Bauman, &ldquo;tendo perdido todas as vis&otilde;es de uma alternativa do futuro (melhor), e associando o futuro, se n&atilde;o a algo &lsquo;pior que o presente&rsquo;, &agrave; ideia de &lsquo;mais do mesmo&rsquo; (mais um novo gadget, mais uma mudan&ccedil;a na moda&hellip;), n&atilde;o admira que, ao procurar ideias genuinamente significativas, n&oacute;s nos voltemos de forma nost&aacute;lgica para as grandes ideias sepultadas (prematuramente?) do passado&rdquo;.


Carlos Berriel lembra que o romantismo, em uma de suas vertentes, tamb&eacute;m j&aacute; edificava o passado, o que, na verdade, n&atilde;o passava de uma &ldquo;constru&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica&rdquo;. &ldquo;Creio que vivemos uma &eacute;poca em que os problemas parecem muito maiores do que as solu&ccedil;&otilde;es dispon&iacute;veis, e as propostas de supera&ccedil;&atilde;o desses problemas parecem irrealistas ou ing&ecirc;nuas&rdquo;, afirma o historiador da Unicamp.


Para a cientista pol&iacute;tica Esther Solano, da Unifesp, &ldquo;quando falamos dessa reorganiza&ccedil;&atilde;o do campo conservador, tanto no Brasil quanto l&aacute; fora, dizemos que o conservador, no fundo, &eacute; um saudosista, porque o passado &eacute; aquele momento do qual ele mais tem controle&rdquo;. Uma situa&ccedil;&atilde;o complexa como a de agora &mdash; em que h&aacute; uma crise econ&ocirc;mica, medidas fiscais duras e desemprego &mdash; provoca instabilidade e inseguran&ccedil;a. &ldquo;O que a pessoa v&ecirc; &eacute; um futuro muito prec&aacute;rio, porque antes havia seguran&ccedil;a, havia emprego, o tempo era mais lento&hellip; Isso deprime a sociedade e causa uma ang&uacute;stia e um medo da rapidez, levando &agrave; saudade de um tempo em que tudo parecia mais f&aacute;cil&rdquo;, avalia a pesquisadora.


O historiador Gregory Claeys lembra que, apesar da expans&atilde;o econ&ocirc;mica e da melhora do padr&atilde;o de vida, n&atilde;o devemos nos esquecer de que o per&iacute;odo de 1945 a 2008 [<em>do fim da Segunda Guerra &agrave; crise econ&ocirc;mica</em>] foi marcado por uma constante amea&ccedil;a de guerra nuclear e que o pre&ccedil;o pago por esse crescimento todo foi a destrui&ccedil;&atilde;o do meio ambiente. &ldquo;Apesar de nos inspirar, o passado tamb&eacute;m nos d&aacute; a capacidade de entender as li&ccedil;&otilde;es da hist&oacute;ria, n&atilde;o pode servir como um guia para o futuro. N&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&otilde;es no passado para a devasta&ccedil;&atilde;o ambiental e a superpopula&ccedil;&atilde;o de hoje, por exemplo. A nostalgia &eacute; in&uacute;til, &eacute; uma mera distra&ccedil;&atilde;o do presente e do per&iacute;odo que se aproxima de n&oacute;s.&rdquo;


Nesse contexto, n&atilde;o &eacute; raro encontrar pessoas que defendam a volta de regimes autorit&aacute;rios e discursos que prezem os &ldquo;valores tradicionais&rdquo;. O problema &eacute; que f&atilde;s de cl&aacute;ssicos como <em>Admir&aacute;vel Mundo Novo</em> (Biblioteca Azul), de Aldous Huxley, <em>N&oacute;s</em> (Ed. Aleph), de Ievgu&ecirc;ni Zami&aacute;tin, do incansavelmente citado <em>1984 </em>e at&eacute; de obras recentes como <em>3%</em>, da Netflix, sabem exatamente o que acontece quando o &ldquo;monop&oacute;lio da verdade&rdquo; &eacute; cooptado por autocratas.


No entanto, segundo Esther Solano, a imagem do ditador cl&aacute;ssico j&aacute; n&atilde;o cabe no s&eacute;culo 21. &ldquo;O que vemos agora s&atilde;o governos com uma apar&ecirc;ncia democr&aacute;tica, mas com tra&ccedil;os claramente autorit&aacute;rios. Supostas democracias que tomam medidas de exce&ccedil;&atilde;o sem nenhum tipo de apoio popular, ou at&eacute; sem base constitucional&rdquo;, alerta a cientista pol&iacute;tica, que ressalta ainda o surgimento de l&iacute;deres que governam de forma teatral. &ldquo;S&atilde;o novos atores que sabem manipular o medo de uma forma muito mais trivial.&rdquo;


Essa ideia &eacute; personificada por Beatty, o chefe dos bombeiros de outro cl&aacute;ssico: <em>Fahrenheit 451</em> (Biblioteca Azul), de Ray Bradbury &mdash; obra adaptada para o cinema por Fran&ccedil;ois Truffaut, em 1966, e que agora ganha nova vers&atilde;o da HBO. Na hist&oacute;ria, livros s&atilde;o considerados &ldquo;o caminho da melancolia&rdquo; e, por desviarem a sociedade &mdash; que agora vive &ldquo;dopada&rdquo; &mdash; do que &eacute; imposto pelo Estado, eles devem ser queimados pelos bombeiros. Em uma passagem, o personagem Faber alude &agrave; in&uacute;til espetaculariza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica: &ldquo;Voc&ecirc;s bombeiros, de vez em quando, garantem um circo no qual multid&otilde;es se juntam para ver a bela chama de pr&eacute;dios [<em>e livros</em>] incendiados, mas, na verdade, &eacute; um espet&aacute;culo secund&aacute;rio. S&atilde;o muito poucos os que ainda querem ser rebeldes&rdquo;.


Para o cr&iacute;tico liter&aacute;rio Manuel da Costa Pinto, essa rela&ccedil;&atilde;o entre passividade popular e despotismo &eacute; um ponto a ser destacado no livro: &ldquo;Sob certo aspecto, <em>Fahrenheit 451</em> n&atilde;o &eacute; uma distopia, mas um romance realista, que flagra a demon&iacute;aca dial&eacute;tica da sociedade de massas, em que as massas parecem ser t&iacute;teres das elites, mas na qual as elites s&oacute; existem em fun&ccedil;&atilde;o das massas&rdquo;, escreveu ele no pref&aacute;cio da edi&ccedil;&atilde;o da Biblioteca Azul.
 (Foto: Ilustração: Marcus Penna)
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<em><strong>A CONDI&Ccedil;&Atilde;O HUMANA</strong></em>


A sociedade do s&eacute;culo 20 parece ter sido tra&iacute;da pelas promessas de um sonho tecnol&oacute;gico ut&oacute;pico. Mas, apesar de tra&iacute;ra, a evolu&ccedil;&atilde;o &eacute; constante, com seus ciborgues, intelig&ecirc;ncias artificiais, nanomedicina e outras novidades. Precisar&iacute;amos, ent&atilde;o, de uma nova utopia que comportasse essa &ldquo;revolu&ccedil;&atilde;o p&oacute;s-humana&rdquo;. &Eacute; isso que defende o escritor Nelson de Oliveira, criador do <em>Manifesto : Converg&ecirc;ncia</em>, projeto iniciado em janeiro. &ldquo;Precisamos perder a vergonha de falar em empatia e fraternidade. Essa &eacute; a proposta central do manifesto: um novo mito que envolva a comunica&ccedil;&atilde;o plena de afetos e ideias.&rdquo;


Bauman apresenta uma vers&atilde;o um pouco mais apocal&iacute;ptica dessa proposta: &ldquo;Estamos diante da perspectiva de nos darmos as m&atilde;os ou de rumarmos para nossas valas comuns&rdquo;. Para o soci&oacute;logo, os &ldquo;seres humanos mercantilizados s&atilde;o pressionados e/ou persuadidos a perceber seu estar no mundo como uma agrega&ccedil;&atilde;o e s&eacute;rie de transa&ccedil;&otilde;es de compra-venda&rdquo;. &Eacute; como se deix&aacute;ssemos de ser humanos para nos tornarmos consumidores, a exemplo do epis&oacute;dio Autofac, da s&eacute;rie <a href="https://revistagalileu.globo.com/Cultura/noticia/2018/01/como-serie-electric-dreams-vai-te-fazer-duvidar-da-realidade.html" target="_blank"><em>Electric Dreams</em></a>, da Amazon Prime, baseada no rec&eacute;m-lan&ccedil;ado no <em>Brasil Sonhos El&eacute;tricos</em> (Ed. Aleph), do mestre new wave Philip K. Dick. Na hist&oacute;ria, um grupo de humanos que vive em um mundo destru&iacute;do tenta interromper a produ&ccedil;&atilde;o de uma f&aacute;brica, que insiste em se manter em funcionamento mesmo que isso signifique a extin&ccedil;&atilde;o dos &uacute;ltimos recursos naturais da Terra.


Em uma sociedade na qual somos estimulados a competir e a comprar o tempo todo e em que o &ldquo;ter&rdquo; se sobrep&otilde;e ao &ldquo;ser&rdquo;, termos como &ldquo;solidariedade&rdquo; e &ldquo;consci&ecirc;ncia coletiva&rdquo; soam bobos. Para o historiador Carlos Berriel, essa no&ccedil;&atilde;o faz com que as distopias sejam muito mais veross&iacute;meis do que uma fic&ccedil;&atilde;o que mostre uma vida em sociedade harmoniosa. &ldquo;A cat&aacute;strofe &eacute; concreta, e &eacute; representada por obras de alto padr&atilde;o est&eacute;tico, enquanto as utopias positivas padecem de descr&eacute;dito e est&atilde;o pr&oacute;ximas do kitsch e da ingenuidade.&rdquo;


Essa rejei&ccedil;&atilde;o ao pr&oacute;ximo pode ser vista em filmes como <em>Filhos da Esperan&ccedil;a</em>, do diretor Alfonso Cuar&oacute;n, de 2006, no qual a Inglaterra se tornou o &uacute;nico pa&iacute;s organizado de um mundo desequilibrado, e os imigrantes deviam ser banidos a qualquer pre&ccedil;o. Mas tamb&eacute;m pode ser vista em Roraima, onde, depois de uma briga entre brasileiros e venezuelanos que deixou dois mortos, em mar&ccedil;o deste ano, moradores do munic&iacute;pio de Mucaja&iacute; expulsaram os imigrantes de um abrigo e atearam fogo aos seus pertences.


&ldquo;Dependendo da situa&ccedil;&atilde;o e do contexto, o estrangeiro pode ser visto como uma amea&ccedil;a, mas o inimigo pode ser qualquer um: desde o jovem negro da periferia at&eacute; um jihadista&rdquo;, afirma Esther Solano. 
&ldquo;Voc&ecirc; cria essa ideia do inimigo para manter a pol&iacute;tica do medo. Isso &eacute; ben&eacute;fico em termos eleitorais, principalmente em ano de elei&ccedil;&atilde;o.&rdquo; Ou, como afirma Bauman, &ldquo;O Estado substituiu seu papel de guardi&atilde;o por aquele que faz com que a incerteza e a inseguran&ccedil;a se transformem em condi&ccedil;&otilde;es humanas permanentes&rdquo;.


O professor aposentado de Psicologia Social da USP Paulo de Salles Oliveira, autor de <em>Cultura Solid&aacute;ria em Cooperativas</em> (Ed. Edusp), &eacute; bastante enf&aacute;tico ao defender que n&atilde;o existe possibilidade de evolu&ccedil;&atilde;o humana no &ldquo;salve-se quem puder&rdquo;. &ldquo;A indiferen&ccedil;a &agrave;s necessidades do outro s&oacute; nos apequena e, dessa forma, nos brutaliza, pois amortece as potencialidades que a todos n&oacute;s se oferecem como seres pensantes&rdquo;, afirma.


O caminho de volta do aparente beco em que se encontra a humanidade parece estar apontado para a promo&ccedil;&atilde;o cada vez maior da cultura do di&aacute;logo e da compreens&atilde;o &mdash; que conv&eacute;m n&atilde;o ser encarada como &ldquo;fraqueza&rdquo; caso queiramos sobreviver ao caos. Se livros s&atilde;o &ldquo;armas carregadas&rdquo;, como escreveu Bradbury, a fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica, em qualquer plataforma, pode ser tanto a nossa placa de indica&ccedil;&atilde;o de sa&iacute;da dessa viela quanto a muni&ccedil;&atilde;o que nos ajuda a lidar com o medo e o &oacute;dio. Afinal, se estamos mesmo em um beco, &eacute; l&aacute;, onde o Grande Irm&atilde;o n&atilde;o pode nos ouvir, que a esperan&ccedil;a &eacute; constru&iacute;da.
 (Foto: Ilustração: Marcus Penna)
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 (Foto: Ícone: Leonardo Yorka)
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<em><strong>M&aacute;quina do tempo</strong></em><br />
Fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica n&atilde;o &eacute; tudo igual; conhe&ccedil;a suas diferentes eras


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1810 - Cl&aacute;ssica<br />
Nesse per&iacute;odo influenciado pelo padr&atilde;o europeu nasce o &ldquo;cientista maluco&rdquo; e o flerte com o fant&aacute;stico, o horror e a aventura. O escritor H. G. Wells que o diga.


1900 - Pulp<br />
R&aacute;pidas e sem compromisso nenhum com o apuro cient&iacute;fico, as hist&oacute;rias dessa fase ganharam destaque nos EUA em revistas e livros baratos e acess&iacute;veis.


1920 - Distopia<br />
As obras que mostram o ceticismo em rela&ccedil;&atilde;o ao futuro em sociedades que falharam com os humanos come&ccedil;am nos anos 1920 e atravessam os s&eacute;culos 20 e 21.


1940 - Era de ouro<br />
Em tom realista e mais complexo, autores como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Robert A. Heinlein mostram que a fic&ccedil;&atilde;o cient&iacute;fica pode ser bastante profunda.


1960 - New Wave<br />
Seguindo a onda da contracultura, escritores como Philip K. Dick e Ursula K. Le Guin passam a experimentar mais e a considerar aspectos sociais em suas obras.


1980 - Cyberpunk<br />
O ambiente ca&oacute;tico e urbano guia autores como William Gibson e Neil Stephenson em hist&oacute;rias que envolvem a cibercultura e um clima dist&oacute;pico.


<em>Fonte: Editora Aleph</em>

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