“Um Contrato com o Brasil”, por Ana Paula Henkel

Muitos brasileiros, em parte induzidos pela parte militante da imprensa engajada, acreditam que Bill Clinton foi um grande presidente. É verdade que seu governo obteve conquistas importantes, mas esta é só uma parte da história. Um dos capítulos mais importantes deste enredo costuma ser convenientemente omitido, mas é hora de revisitar esta história neste momento que vive o Brasil.
A América tem um presidencialismo que reserva um papel especial ao Congresso, um poder que influencia diretamente no sucesso ou fracasso de qualquer governo. Com o legislativo hostil ao presidente, suas chances de conseguir o que quer ficam bastante reduzidas e é por isso que muitos presidentes bem sucedidos são, antes de tudo, excelentes articuladores políticos ou, ao menos, sabem falar com o Congresso em troca de uma agenda positiva para sua gestão e para o país. E esta é a principal característica dos oito anos do mais famoso predador sexual que já passou pela Casa Branca.
Tão importante quanto Bill Clinton naquele período foi Newton (“Newt”) Leroy Gingrich, o historiador e congressista Republicano que presidiu a Câmara a partir de 1995, ano em que foi escolhido Homem do Ano pela Revista Time. O Partido Republicano recuperou o controle da Câmara depois de 40 anos nas eleições de 1994, segundo ano do mandato de Bill Clinton, e Newt Gingrich deixou claro que não estava lá a passeio desde o primeiro dia no cargo mais importante do legislativo. Sem sua atuação como líder da oposição, é impossível imaginar que o ex-governador de Arkansas teria conseguido os notáveis resultados econômicos que até hoje se vangloria.
Na eleição de 1994, Gingrich redigiu, com Dick Arney e a ajuda da The Heritage Foundation, o célebre “Contrato com a América”, um conjunto de compromissos oferecidos pelos candidatos Republicanos ao Congresso naquela eleição como contraponto aos arroubos expansionistas de gastos de Clinton e, evidentemente, de praticamente qualquer presidente de esuqerda ou progressista. O histórico documento prometia aos eleitores que, se houvesse uma maioria republicana no ano seguinte, seus representantes iriam baixar impostos, controlar os gastos públicos, equilibrar o orçamento governamental, fomentar o empreendedorismo e reformar os perdulários e ineficientes programas sociais dos Democratas. Deu certo.
O “Contrato com a América” foi um compromisso explícito dos futuros congressistas com uma pauta de estado e não apenas partidária. Mesmo com um presidente do partido adversário, os legisladores comandados por Newt Gingrich ofereciam à nação um plano que não tinha como objetivo minar o governo Clinton ou obstruir suas pautas, mas contribuir com medidas de responsabilidade fiscal para o saneamento das contas públicas e o impulsionamento da economia, o que acabaria, como acabou, beneficiando o próprio Bill Clinton politicamente. O que falou mais alto foi o interesse do país e a luta para continuar o período de desenvolvimento iniciado por Ronald Reagan na década anterior e que acabou levando a 25 anos de bonança. Com uma pauta republicana, mas apartidária ao mesmo tempo, todo mundo venceu.
Lembro deste episódio ao ver as reações de muitos oposicionistas derrotados nas eleições do último domingo vociferando contra o presidente eleito e, ao que tudo indica, apostando no “quanto pior, melhor”. O pais dos 60 mil assassinatos por ano, 60 milhões de inadimplentes e dos quase 15 milhões de desempregados que se dane. Em nome da verdade, é o que vemos aqui na América também em relação ao governo Trump, que enfrenta uma oposição igualmente terrorista e que não pensa duas vezes em jogar o país no caos para avançar sua própria agenda. Tempos estranhos onde o narcisismo partidário sufoca num piscar de olhos os anseios da população .
A vitória de Jair Bolsonaro foi maiúscula, acachapante, inquestionável. O Brasil escolheu dar uma chance para o ex-capitão e todo brasileiro, tendo votado nele ou não, deveria pensar no país antes de bancar o homem-bomba e colocar suas fichas na obstrução e na oposição destrutiva, mesquinha e suicida. Quem pagará essa conta serão os mais vulneráveis da sociedade que não merecem ser joguetes na mão de políticos oportunistas e insensíveis. Alguém precisa pensar no país. Por que não todos nós?
O que define uma democracia não é haver governo, já que ditaduras também têm. Uma democracia não só permite como precisa de oposição, mas uma oposição patriota, propositiva e que tenha o interesse da população como seu norte moral e guia de ação. Quando o governo errar, que seja cobrado por seus erros, quando for omisso que seja lembrado, mas quando acertar que seja apoiado não por ele mas pelo país. Quando se critica tudo, nada acaba sendo criticado.
A eleição mais polarizada dos últimos tempos ficou para trás. Agora é hora de um “Contrato com o Brasil” de todos os lados, tanto dos verde e amarelos quanto dos vermelhos, em nome da população e de uma nação que não suporta mais tanta violência, corrupção e desemprego. Jogar contra o governo, neste momento, é penalizar quem menos pode se defender. É dar as costas para a vontade popular claramente expressa nas urnas. Temos que nos fazer um convite sincero à trégua. Temos que tentar agregar, com vigília constante nas críticas justas e pertinentes e com respeito e esperança nos acertos. O relógio não está a nosso favor.
O PT perdeu a primeira eleição presidencial desde 2002, mas fez a maior bancada do Congresso e continua uma força política inegável, especialmente na chamada “classe falante” formada por jornalistas, acadêmicos, artistas, sindicalistas e parte do funcionalismo público. Espero que sejam, assim como todos nós, signatários deste contrato em nome do país. Assim como aconteceu na América nos anos 90, todos ganham. Inclusive a oposição.

O Estado de São Paulo

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