Trump contém onda democrata

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em comício no Missouri, na véspera da eleição — Foto: Jim Watson / AFP
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em comício no Missouri, na véspera da eleição 
— Foto: Jim Watson / AFP

Apesar de perder maioria na Câmara, republicanos conquistam cadeiras no Senado e evitam derrota em eleições estaduais críticas para manter o poder em 2020

A onda democrata avassaladora nas eleições
de meio de  mandato não se concretizou. Não 
que tenha sido uma marolinha, afinal a 
oposição recuperou o controle da Câmara. 
Mas ficou longe do tsunami previsto por
alguns. Os diques republicanos detiveram a 
maré.
A campanha liderada pelo presidente Donald
Trump serviu  para os republicanos 
conquistarem pelo menos três cadeiras
 do Senado, evitarem a derrota em eleições
estaduais críticas  e restringirem a extensão
 dos ganhos democratas na Câmara.
O resultado final era esperado. Democratas
comandarão a Câmara e vários governos;
 republicanos, o Senado. Mas o placar foi 
mais apertado do que os democratas 
gostariam. Trump comemorou com razão.
No Senado, os republicanos tomaram dos
democratas as cadeiras de Dakota do Norte,
 Indiana e MIssouri. A primeira derrota era 
prevista desde que a senadora Heidi 
Haitkamp votou, num estado conservador, 
contra a confirmação do juiz
 Brett Kavanaugh à Suprema Corte. As duas
outras traziam  esperanças à oposição, em 
especial Indiana, onde Trump fez campanha 
incansável pelo empresário Mike Braun. No 
Missouri, o republicano Josh Hawley
derrotou a senadora Claire McCaskill.
As barreiras erguidas pelos republicanos nas
eleições para o Senado também funcionaram 
no Tennessee e no Texas, onde a oposição 
depositava esperanças em Beto O’Rourke
contra o senador Ted Cruz. Num estado de 
tradição republicana, O’Rourke conseguiu a
façanha de encostar em Cruz, mas perdeu
como previsto.
Mantida a tendência dos resultados, é
provável que os republicanos somem até 
55 dos 100 senadores. Em Montana, 
a apuração dá ampla vantagem ao
republicano Matt Rosendale
 sobre o senador democrata Jon Tester.
 No Arizona, a republicana Martha McSally 
derrotou outra esperança 
democrata, Kyrsten Sinema. No MIssissipi,
estado que realiza eleições para duas vagas
 no Senado, os republicanos 
venceram a primeira. Haverá segundo turno
 para decidir a segunda, que o democrata
 Mike Espy esperava tirar da 
senadora Cindy Hyde-Smith.
A Flórida, outro estado essencial para a
estratégia democrata  no Senado, manteve 
a tradição de disputas apertadas cuja
 apuração se estende pela madrugada. O
republicano Rick Nelson leva vantagem 
sobre o senador Bill Nelson e, ainda
 que haja recontagem de votos, poderá ser
o quarto a conquistar uma cadeira 
democrata.
Nas eleições para os governos estaduais, a
vitória do republicano Ron DeSantis na 
Flórida acaba com o sonho democrata de 
que Andrew Gillum se tornasse o primeiro 
negro a comandar o estado. Tanto Gillum
quanto  O’Rourke, do Texas, eram vistos 
como candidatos potenciais à Presidência 
no futuro, cenário que ficou mais
distante.
Outro governo visto como possível conquista
democrata, a Geórgia, foi mantido nas 
mãos do republicano Brian Kemp, cuja 
margem de 
vitória aparentemente será suficiente para
 evitar a recontagem de votos, último recurso
vislumbrado pela democrata Stacey Abrams.
Apesar dessas derrotas, as disputas pelos
governos estaduais estão entre as conquistas
 democratas nas urnas. A oposição 
tirou dos republicanos os governos de Kansas,
Nevada, Maine  e Novo México. No Meio 
Oeste, região que garantiu a vitória 
de Trump em 2016, conquistou os governos
de Michigan, Illinois e, por margem apertada, 
Tony Evers  derrotou o governador Scott 
Walker no Wisconsin.
Mesmo com a derota em Ohio, onde
Richard Cordray perdeu  a eleição a 
governador para o republicano Mike 
DeVine, o  avanço democrata no Meio
Oeste representa um problema potencial 
para Trump. Ele depende 
da região para a reeleição em 2020.
O maior problema para ele, claro, será
enfrentar a maioria democrata na Câmara. 
Apesar de não ter protagonizado o 
tsunami que desejava, a oposição sairá com
um saldo positivo em torno de 33 cadeiras, 
algo como 228 dos 435 votos. É o suficiente 
para rejeitar qualquer iniciativa legislativa
 do Executivo e até para denunciar o
presidente num processo de impeachment
 (nos Estados Unidos, a denúncia
 exige maioria simples na Câmara; a
condenação, dois terços  no Senado).
Os democratas obtiveram conquistas
simbólicas em distritos  caros aos 
republicanos, como o sétimo da Virgínia, 
onde  David Brat, uma das estrelas do 
Tea Party, perdeu para Abigail Spanberger
 por uma margem inferior a um ponto 
percentual. Na Pensilvânia e em Nova
Jersey, tiraram ao todo seis distritos dos
 republicanos.
Mais dois em Illinois, dois na VIrgínia, dois
 em Iowa, dois no Texas, pelo menos dois
 em Minnesota, outros dois em Nova
 York. Somados a conquistas no Michigan,
 Carolina do Sul, Kansas, Arizona e 
Colorado, os distritos reconquistados 
pelos democratas redesenham o tradicional
mapa eleitoral  americano.
A vitória democrata na Câmara resulta de
uma estratégia de campanha voltada para 
os subúrbios e para o público feminino, 
em que a rejeição a Trump é alta. Graças
às candidatas democratas vitoriosas, em 
2019 a Câmara terá pela primeira 
vez mais de cem deputadas. É provável que
 o partido aposte outra vez numa mulher
para disputar a Presidência contra
Trump em 2020.
Uma candidata possível é Sherod Brown,
senadora que manteve sua cadeira por 
Ohio, estado-pêndulo crucial em qualquer 
eleição presidencial. Abrams, O’Rourke e 
Gillum deixam de sonhar com a Casa 
Branca. Os democratas podem  celebrar a
vitória na Câmara. Mas a derrota no Senado
 e em  governos estaduais críticos, como 
Ohio e Flórida, dificulta o caminho do partido 
contra Trump em 2020.

Por Helio Gurovitz, G1

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