Nova Caledônia vota em referendo por manter-se como território francês

Território francês na Oceania, a Nova Caledônia votou neste domingo (4) “não” à independência de Paris. A participação no referendo histórico foi massiva, com 80,63% dos eleitores. Os resultados oficiais definitivos mostram que a opção de permanência como parte da França teve 56,4% dos votos contra 43,6% a favor do “sim”, segundo a autoridade eleitoral.

O arquipélago francês tem 270.000 habitantes e é considerado um ponto estratégico da França no Oceano Pacífico. O resultado do referendo causou surpresa porque  desmentiu as pesquisas que previam uma vitória do “não”, com 63% a 75% dos votos. Os independentistas, porém, reconheeram o resultado.

Depois dadivulgação dos resultados, o presidente francês, Emmanuel Macron, declarou aos habitantes do arquipélago estar orgulhoso  pela “superação desta histórica etapa”. Para Macron, houve “uma demonstração de confiança na França, no seu futuro e nos seus valores”.

“Quero expressar o orgulho que representa para o chefe de Estado que a maioria tenha optado pela França”, afirmou o presidente na televisão, em que ressaltou que “o único caminho é o diálogo”.

Antes da votação, Macron manteve oficialmente uma posição neutra e não quis “tomar partido”. No entanto, disse que “a França seria menos bonita sem a Nova Caledônia”, durante uma visita em maio a Nouméa, referindo-se às paisagens paradisíacas do território ultramar. Para o primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, este referendo marcou “o começo da Nova Caledônia, que quer construir um futuro”.

Macron afirmou também que  “o diálogo é o único caminho possível” entre as duas visões e lembrou que o Philippe chegará na segunda-feira a Noumea para se reunir com os diferentes líderes políticos. O governante garantiu que os únicos derrotados deste referendo foram “a divisão e o medo”, que perderam para “a paz e o espírito de diálogo e responsabilidade de todos”.

Neste domingo à noite, vários carros foram incendiados, e pedras foram atiradas contra imóveis. Os principais líderes políticos já haviam avisado que uma vitória do “não” poderia incitar os jovens marginalizados a gerar tumultos.

O referendo neste arquipélago do Pacífico, onde a França se estabeleceu em 1853,  e foi acompanhado de perto por Paris, a 18.000 quilômetros de distância.

Para garantir o desenvolvimento adequado do plebiscito, o Estado enviou 250 delegados, além de contra com a presença de observadores da ONU nas seções eleitorais.

Canacos versus caldoches

O referendo pestava previsto no Acordo de Nouméa, firmado em 1998 com Paris, e deverá reconciliar os canacos (nativos), que representam menos de 40% da população, e os caldoches (de origem europeia). Durante os anos 1980, houve uma sucessão de confrontos violentos na Nova Caledônia, cujo episódio mais trágico foi a tomada de reféns na ilha de Ouvea ,em maio de 1988. Vinte e cinco pessoas morreram, incluindo 19 separatistas canacos.

A campanha do referendo, entretanto, tranccorreu em calma. Enquanto as províncias do Norte e as Ilhas da Loyauté, de maioria independentista, se encheram de bandeiras separatistas, os defensores da unidade com a França não se expressaram tão visivelmente.

“Este é o momento histórico que todos esperavam. Mas, paradoxalmente, perdeu sua intensidade”, explicou Pierre-Christophe Pantz, especialista em Geopolítica. “A campanha foi muito tranquila, o referendo não atraiu muita atenção”, completou, ao destacar que “os caledonianos acham que isso não mudará sua vida cotidiana”.

Soumynie Mene, militante idependentista de 38 anos, considerou “uma pena que as pessoas não sintam um grande interesse em um referendo que preparamos há 30 anos” e que lhes permitiria “virar a página da colonização”.

O FLNKS, principal partido pró-independência, defendeu que uma vitória do “sim” não representaria uma ruptura total com a França, mas manteria uma relação privilegiada com este país.

As formações que defenderam a permanência da Nova Caledônia como território francês, com fortes divisões internas, lembram que Paris contribui com ajudas anuais de 1,3 bilhão de euros (cerca de 1,4 bilhão de dólares) para o arquipélago.

Apesar dos seus últimos trinta anos com maior autonomia e reconhecimento da identidade dos canacos, a Nova Caledônia mantém grandes desigualdades econômicas, educacionais e trabalhistas entre a população de origem europeia e o povo originário. “Ainda há problemas de integração e um sentimento de injustiça presente na sociedade”, diz Paul Fizin, doutor em História.

(Com AFP e EFE)

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