“Enem é uma prova chata como os cursos de Humanas das federais”, por Leandro Narloch

O exame disfarça limitação intelectual de seus autores com proselitismo politicamente correto



Como acontece todos os anos, questões do Enem renderam polêmica, e lá fui eu analisar a prova para formar uma opinião. Formei a seguinte: o Enem não é uma prova de conhecimento ou de interpretação de texto, mas de paciência. É uma prova chata, que disfarça a limitação intelectual de seus autores (em geral, professores das universidades federais) com um proselitismo careta e politicamente correto.
Só um candidato resignado ou muito paciente é capaz de aguentar tanto sermão a favor de um mundo melhor e das minorias, e um bom-mocismo tão repetitivo contra o preconceito. Pelos textos que o Enem apresentou este ano, todos os problemas do mundo são causados pelo lucro e pela discriminação, e todos se resolverão por meio da tolerância e da agricultura familiar.
Tadinhos dos candidatos. Na prova deste ano, tiveram que aturar trechos de:
– Eduardo Galeano criticando o fato de o futebol ter se tornado “um produto a ser consumido, negando sua dimensão criativa”;
– Um artigo acadêmico sobre o preconceito no futebol feminino brasileiro;
– Uma notícia da Carta Capital sobre protesto de participantes do Miss Peru contra o feminicídio;
– Uma notícia de O Globo sobre racismo e homofobia na internet;
– Um texto da Unesco sobre direitos humanos e a Agenda 2030, segundo o qual “centenas de milhões de mulheres e homens são destituídos e privados de condições básicas de subsistência”;
– A notícia sobre o dialeto gay, que rendeu a reclamação de Bolsonaro;
– Um discurso de João Goulart que defende leis trabalhistas.
Poucos desses textos motivaram perguntas inteligentes ou que exigiram algum conhecimento útil sobre o uso da linguagem. Fica a impressão de que o objetivo dos autores das questões é mais a doutrinação (fazer os candidatos lerem um texto politicamente correto e/ou de esquerda) do que de fato avaliar a capacidade de interpretação.
Por exemplo, na questão baseada no estudo “A imagem da negra e do negro em produtos de beleza e estética do racismo”, os candidatos precisaram decidir se, no texto em questão, “a função referencial da linguagem” é estabelecida pela “impessoalidade, na organização da objetividades das informações”, ou pela “seleção lexical, no desenvolvimento sequencial do texto” ou talvez pela “nominalização, produzida por meio de processos derivacionais na formação de palavras”. Haja paciência.
Dá pra entender a enorme evasão em escolas públicas de Ensino Médio. Não é exatamente excitante passar três anos estudando para uma prova xarope como essa.
Pior ainda, para ganhar o ponto de algumas questões, o candidato teve de concordar com o viés ideológico do autor. A pior pergunta do Enem deste ano se baseia num texto que dá como certo que a agricultura orgânica é mais ecológica e saudável que a convencional. A partir daí, o enunciado pede para o candidato escolher entre diversas alternativas estatistas para favorecer a agricultura “marginalizada” —subsídios, restrição de máquinas, controle de sistemas de irrigação. A resposta correta é “regulamentar o uso de sementes selecionadas”.
O Enem é como um ritual de passagem do Bope ou o trote de fraternidades americanas. Para ter o direito de entrar numa faculdade, o candidato precisa se submeter e suportar diversas humilhações. No caso do Enem, precisa ler “Iracema”, encarar textos feministas desconexos, aceitar que a agricultura intensiva (que salvou bilhões de pessoas da fome no último século) é malvadona.
O Enem é uma tortura legalizada pelo Ministério da Educação.
Leandro Narloch

Jornalista, autor de “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. É mestre em filosofia pela Universidade de Londres

Folha de São Paulo

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