Como os brasileiros produzem (e consomem) conteúdo na internet

Da próxima vez que estiver descendo o olho pelo seu Facebook ou Twitter, tente prestar atenção na procedência de cada uma das postagens. Quem já fez isso, uma vez que seja, com certeza percebeu que grande parte delas é fruto de compartilhamentos. Ainda que você conheça a Fulana que passou à frente uma análise política que julgou interessante, ou o Beltrano que acha que seus seguidores não podem deixar de assistir àquela receita de bolo, é pouco provável que você saiba quem, de fato, criou cada uma dessas coisas.

O espaço para conteúdos autorais, por outro lado, tende a ser significativamente menor. Pode reparar: é mais raro ver um vídeo que um amigo fez com um celular durante um churrasco de família ou a selfie de uma prima que você não vê há anos do que um meme qualquer criado por um completo desconhecido – e que, por ser muito compartilhado, pipocou bem na sua timeline.

Essa tendência de uso na internet apareceu no levantamento “TIC Domicílios Cultura”, divulgado recentemente pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) – órgão que coordena iniciativas e serviços de internet no país. Realizada todo ano desde 2005, a pesquisa “TIC Domicílios” visa medir o uso das tecnologias de informação e comunicação entre brasileiros. Na edição 2017, entraram na conta, pela primeira vez, certos aspectos culturais do uso da internet – como determinados índices sobre o comportamento dos usuários de redes sociais, por exemplo.

Nesse sentido, a versão mais recente traz um dado curioso: pouco mais de um quarto da população acima de 10 anos de idade (26%) admite ter o hábito de publicar conteúdos próprios na internet. Esse número vem aumentando rapidamente. Se 31,1 milhões de indivíduos faziam isso em 2013, foram 44,7 milhões em 2017.

A justificativa que mais motiva as pessoas a criarem postagens autorais, segundo o estudo, é a vontade de divulgar ao mundo situações cotidianas – leia-se, aqui, o aniversário do filho ou o passeio do fim de semana, eventos que correspondem a 17% do total dos posts. Opiniões sobre temas de interesse público, (os populares textões) somam 14%. “Aproximar-se de pessoas com interesses comuns”, com 13%, foi a terceira justificativa mais utilizada.

Tópicos como a divulgação de um trabalho (9%), de um conteúdo artístico (7%) ou a venda de produtos ou serviços (5%), aparecem logo depois. Sabe aqueles posts patrocinados, que fazem tanto sucesso com as blogueiras no Instagram? No geral, eles costumam ser raridade, já que só 2% dos postadores admitiu que recebe algum tipo de remuneração para fazê-los.

O hábito de passar informação adiante, seguindo essa tendência de maior uso, também cresceu em ritmo parecido. Dá para dizer que a porcentagem de repassadores, no entanto, é bem mais significativa que a de produtores de conteúdo. O total de usuários de internet que costuma compartilhar textos, imagens e vídeos, que era de 60% em 2014, chegou a 73% no ano passado.

O tipo de informação mais difundido são as imagens, publicadas por 24% da população. Em segundo lugar estão os textos, com 13%. Vídeos têm 11%, e músicas, 4%.

Para a realização da pesquisa, o Comitê Gestor da Internet ouviu moradores de 23.592 domicílios, em 350 cidades, entre novembro de 2017 e maio de 2018. Para definir quem seria visitado para responder o questionário, que é presencial, a entidade considerou informações do Censo Demográfico e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso quer dizer que o total de homens, mulheres, habitantes da zona urbana e rural, adultos e crianças, ricos e pobres, por exemplo, foi observado como critério de escolha para o levantamento. Tudo para que o cálculo retratasse a realidade do Brasil da forma mais fiel possível.

A coordenadora da pesquisa TIC Cultura, Luciana Lima, disse à SUPER que os dados de uso da rede se relacionam com a facilidade de acesso. Isso porque a produção de conteúdo próprio costuma ser limitada, por exemplo, em classes sociais que usam a internet exclusivamente pelo celular – como as D e E. O mesmo vale se a banda larga é fixa ou móvel. Poder acessar tanto do computador quanto do celular e ter internet à vontade “tem reflexo nas atividades desenvolvidas e possibilidades colocadas para esses usuários”, argumenta Lima.

Você pode ter acesso a mais dados sobre o uso de internet no Brasil obtidos pela TIC Domicílios 2017, bem como ler a pesquisa completa, clicando neste link.

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