Como a Primeira Guerra mudou para sempre as relações entre povos e países

O turista que hoje pede um café no centenário La Taverne du Croissant talvez não imagine que o tradicional bistrô parisiense foi palco do assassinato do líder socialista Jean Jaurès, uma das poucas vozes que defendiam uma solução pacífica para o iminente conflito que espreitava a Europa.

Há exatos cem anos, Jaurès foi baleado duas vezes na cabeça e morreu ali mesmo, no salão do restaurante, enquanto jantava. O calendário marcava 31 de julho de 1914. Três dias depois, a Alemanha declarou guerra à França e deu início à Primeira Guerra Mundial. O autor dos disparos, tão francês quanto Jaurès, era um jovem de 29 anos chamado Raoul Villain. Anos depois, ele seria preso e justificaria seu ato, acusando o socialista de traição à pátria.

Naquele verão europeu, muita gente queria a guerra. As relações entre as grandes potências já estavam desgastadas, e o desejo de um confronto armado havia contaminado os gabinetes dos principais líderes mundiais. Nos campos e nas cidades, a apreensão da população se misturava a discursos nacionalistas, quase infantis, mas todos estavam confiantes na vitória e contagiados pela falsa ideia de que seria um conflito rápido, com poucas perdas.

Milhões de soldados foram mobilizados em todo o continente e partiram para o front como se estivessem saindo para um fim de semana no campo. Mas não foi bem isso o que o tempo mostrou. A Primeira Guerra terminou quatro anos depois com números assombrosos. Batalhas violentas, perseguições étnicas, pestes e conflitos civis dizimaram a vida de 17 milhões de pessoas, incluindo 7 milhões de civis.

Os combates se espalharam pelo mundo e envolveram 28 países (veja os principais no quadro abaixo). Grandes impérios foram à ruína. Moderno e arcaico ao mesmo tempo, o conflito também impulsionou um fantástico salto tecnológico em termos de armamentos militares. Misturou mulas, jegues e cavalos com os primeiros tanques a entrar em combate na história. O avião, recém-criado, consagrou-se como máquina de guerra. E os submarinos, embora já tivessem sido utilizados em conflitos anteriores, receberam grandes inovações.

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Esse imenso laboratório com experiências de todos os gêneros criou o ambiente perfeito para um conflito de grandes proporções, capaz de produzir cenas repugnantes, mas também histórias inimagináveis para um campo de batalha, como as tréguas informais que levaram inimigos a trocar presentes em plena véspera de Natal.

Ao final do confronto, o mundo já não era o mesmo. Fronteiras foram alteradas, colônias conquistaram independência, e os Estados Unidos surgiram como grande potência econômica e militar. Esses e outros fatores até hoje repercutem nas relações internacionais. O conflito entre árabes e judeus, por exemplo, aflorou depois da partilha do Império Otomano entre franceses e britânicos, em 1919. Nos Bálcãs, o desmembramento do Império Austro-Húngaro deu origem ao Reino da Sérvia, Croácia e Eslovênia, um caldeirão étnico que ficaria escondido durante décadas sob o manto do socialismo, explodindo em violentas guerras civis nos anos 1990 – foi o único conflito em solo europeu nos últimos 70 anos.

Do outro lado do mundo, Japão e China seguem disputando ilhotas estratégicas como Senkaku, de apenas 6 quilômetros quadrados. O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, comparou a atual relação com a China com aquela que britânicos e alemães mascaravam em 1914 – mantinham relações comerciais enquanto fortaleciam suas forças armadas.

O francês Jean Jaurès não foi a primeira vítima da guerra nem o estopim que levou alemães, austro-húngaros e turcos-otomanos, nos, também chamados de Potências Centrais, a lutarem contra as tropas da França, Grã-Bretanha e Rússia, as forças aliadas. No início de julho de 1914, milhões de europeus já vestiam fardas e aguardavam o primeiro sinal para entrar em combate. Os interesses em jogo eram os mais variados. A França ansiava pela restituição da Alsácia-Lorena, região perdida na humilhante derrota de 1870, durante a guerra franco-prussiana. A Grã-Bretanha esperava destruir uma nova ameaça a sua supremacia marítima, a frota naval alemã. Já o sultão otomano Mehmed V, além de interessado em honrar sua aliança com germânicos e austríacos, queria mandar um recado à Rússia, que estava de olho no estreito de Dardanelos.

Nesse balaio de gatos, sobrou primeiro para o mais fraco. A 3 de agosto de 1914, os alemães cruzaram a fronteira com a Bélgica e deram início aos primeiros combates da frente ocidental. Soldados eram despejados próximos dos campos de batalha por meio de uma extensa rede de ferrovias, marcando um importante avanço de logística: eles desciam dos vagões – cada homem com 30 quilos de suprimentos nas costas – e caminhavam alguns quilômetros até o front. Munições ficavam a cargo de cavalos.

Belle Époque

A Primeira Guerra pôs fim a um dos períodos de paz mais pujantes da Europa, a Belle Époque. Nos primeiros anos do século passado, as indústrias britânica e alemã se rivalizavam em inovações tecnológicas, enquanto as cidades de Paris e Viena experimentavam uma fantástica efervescência cultural.

A pujança era bancada pela expansão de colônias em todos os continentes e se apoiava em tratados comerciais com fornecedores de matérias-primas de nações independentes, como o Brasil e a Argentina. Uma extensa rede de comunicação, que atravessava fronteiras e oceanos cada vez mais rápido, completava o cenário favorável ao desenvolvimento. Foi justamente essa globalização que acabou levando ao envolvimento do mundo inteiro no conflito.

Em maio de 1915, os italianos romperam o tratado com os impérios centrais e subiram os Alpes para lutar contra os austro-húngaros. Dois anos depois, cansados de ver seus navios mercantes afundados por submarinos alemães, os EUA entraram na refrega e turbinaram as forças aliadas – fator decisivo para o rumo das batalhas que se seguiriam.

Em setembro e outubro de 1918, enfraquecidos pela contraofensiva aliada, austríacos e turcos se renderam. No dia 11 de novembro, foi a vez dos alemães.

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“O fato de a Alemanha ter sido a derrotada foi quase fortuito, poderia ter sido qualquer um de seus inimigos. A guerra não se resolveu pela descoberta ou aplicação de uma nova técnica militar, mas pelo desgaste dos efetivos de produção industrial”, escreve John Keegan no livro Uma História da Guerra.

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No final, sobrou pouca coisa para contar, além dos amontoados de corpos . Os impérios da Alemanha e da Áustria-Hungria haviam entrado em colapso. Falida e faminta, a Rússia fez sua revolução e acabou com a era dos czares. Enquanto juntavam os cacos, França e Grã-Bretanha perderam a hegemonia nas relações internacionais. E os EUA estabeleceram uma nova ordem econômica.

Ainda assim, o armistício de 1918 deixou muitas questões mal resolvidas. Questões que voltariam à tona 20 anos depois, quando os alemães enfrentariam o mundo novamente. Dessa vez, sob o comando de um ex-cabo da Primeira Guerra: Adolf Hitler. No fim, o mundo só voltaria a experimentar uma globalização equivalente à do período pré-Primeira Guerra quase um século depois, nos anos 1990, com o fim da URSS.

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